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i-Responsabilidade Social, o que há por trás dessa máscara?

out 3, 2005   //   por Serendipidade   //   Comportamento  //  2 Comentários

(c) yotophoto.comHoje a consciência com o nosso meio ambiente e sociedade está bem difundida (mas não totalmente), parece até moda, todas empresas estão adotando ou já adoraram e os institutos de responsabilidade social se estabeleceram. Quem tem a ganhar com isso somos nós mesmos, sem dúvida.

Mas para mim, no fundo, a responsabilidade social não passa de fachada para uma boa propaganda de marketing. No fundo as empresas não se importam.

O pior: quem não faz é visto com cara feia.
Um pouco pior: só fazem porque tem que fazer (evita atrasos e caras feias).
E pior ainda: tem gente que faz para cobrir buracos (ainda fazendo um monte de coisas erradas por trás).

A questão é que não deveríamos ser forçados a usar essa fachada, deveríamos ser por definição protetores da sociedade.

Vejam só que história vergonhosa:

A responsabilidade social é um movimento recente. Isso significa que estamos ainda saindo das cavernas, ainda não deixamos de ser animais irracionais por completo. O movimento tomou força nas décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos e Europa e no Brasil só foi reconhecidamente consolidado na década de 90. Por quê demoramos tanto para agir?

Na nossa cegueira de ganância e egoísmo o resto vem em segundo plano.

O negócio já chegou até nas escolas onde educamos as crianças. Você prefere matricular seu filho em uma escola que promova a consciência social? Lógico que sim. Mas reflita se você não está admitindo ser pobre em responsabilidade social. O exemplo tem que vir primeiro de casa e não da escola. Para as escolas, lógico, tudo isso não passa de mais uma oportunidade de abocanhar mais dinheiro. Se elas se declaram responsáveis socialmente, porque não promovem bolsas de estudo para pessoas pobres? Ah… vai misturar a elite com a pobreza… É proibido? Nesse momento as discussões se voltam para o comunismo, afinal, dar espaço para pessoas menos abastadas é visto como comunismo por muitas pessoas. Que falta de visão…

No filme chileno Machuca de 2004, um padre da escola mais rica da cidade decide abrir espaço para crianças de famílias mais humildes seguindo o modelo de governo de Salvador Allende. A reação dos pais e dos próprios alunos mais ricos é óbvia. Imagina aqui no Brasil de hoje com as drogas e violência. Você acha que daria certo? Não vale a pena pelo menos tentar?

Quem sabe aproveitando a onda, o governo também não obrigue todos os cidadãos brasileiros a fazer um curso, carregar uma carteirinha, ou ter um carimbo na sua carteira de motorista com os dizeres: “Responsável Socialmente”. Ah… esqueci que já existe um atestado… as pulseirinhas solidárias. A maior prova de humanismo desde nunca… É o fim da picada.

Proponho um exercício: Visite a relação das 10 piores corporações de 2004, identifique aquelas que agrediram a sociedade e veja se elas possuem programas de responsabilidade social estabelecidos. Você poderá se surpreender com a presença de programas inócuos e com o cinismo.

É uma vergonha usar atributos que deveriam fazer parte da nossa vida há muitos anos só agora que o globo está aquecido, milhares de espécies estão em extinção e a violência está nas alturas. Não há muito que fazer, porque nosso senso de urgência só funciona quando estamos quase por explodir. Infelizmente.

Mas… antes tarde do que nunca.

Meninos em Perigo

set 25, 2005   //   por Serendipidade   //   Comportamento  //  Nenhum comentário

(c) yotophoto.comPor Henrique Úchida Rezeck

“Não existem fatos isolados. Tudo está ligado a tudo”
Carl G. Jung

A repetição de um fato grave em uma comunidade é sintoma de que muitas coisas não vão bem.

Num espaço de quatro anos, dois garotos tiveram suas cabeças esfaceladas em dois acidentes em Poços de Caldas: 04/10/2000 e 24/11/2004. Em ambos os casos, circulavam de bicicleta quando foram atropelados por ônibus.

Isto serve como evidência mais do que explícita de que nossa sociedade não sabe cuidar nem proteger suas crianças e seus adolescentes.

Lembro-me de uma ocasião em que, preocupado com estas ocorrências, liguei para a gerente de uma rede de padarias do centro da cidade e informei a ela que seria bom para a segurança dos entregadores o uso de capacetes e bicicletas com olhos de gato nas laterais, frentes e traseiras, além de espelhos retrovisores. Muito embora ela concordasse, nenhuma dessas providências veio a ser tomada. As pessoas podem ser, por vezes, deveras inconseqüentes…

É importante que aperfeiçoemos nossa educação no trânsito, tanto quanto a sinalização, mas, principalmente, nós precisamos deixar de achar que é impossível proteger nossos menores e começar a dedicar tempo a APRENDER a cuidar deles. Não é vergonha assumir que não sabemos, mas é irresponsabilidade nos negarmos adquirir tal conhecimento. Para mães, pais e outros educadores um bom começo pode ser a ESCOLA DE PAIS, QUE É GRATUITA.

Chama-me a atenção, entretanto, a maior incidência de problemas entre os jovens do sexo masculino. Enquanto preparava “Listening to Boys’ Voices” (Ouvindo a Voz dos Garotos), um de seus estudos que mais tarde se tornaria livro, o Dr. William Pollack, do Centro Para Homens do Hospital McLean, um departamento da Faculdade de Medicina de Harvard, e membro fundador da Sociedade Para o Estudo Psicológico dos Homens e da Masculinidade da American Psychological Association, descobriu novas evidências que apoiavam sua percepção de que muitos garotos hoje enfrentam sérios problemas. O quadro é alarmante:

“No sistema educacional os meninos têm duas vezes mais chances que as meninas de serem rotulados “incapacitado para a apreendizagem”, constituem até sessenta e sete por cento das turmas de “educação especial”, e em algumas instituições têm até dez vezes mais probabilidade de serem diagnosticados portadores de uma desordem emocional grave – principalmente a desordem do déficit de atenção (para a qual muitos tomam medicação forte com efeitos colaterais potencialmente perigosos). Enquanto a significativa lacuna nas notas das garotas em ciências e matemática tem melhorado bastante, os resultados apresentados pelos garotos em leitura têm diminuido substancialmente. Estudos recentes também demonstram que não apenas a auto-estima dos meninos é mais frágil que a das meninas e que a confiança deles como alunos está menor mas também que os meninos são consideravelmente mais propensos a se envolverem em problemas disciplinares, serem suspensos de aulas ou abandonarem totalmente os estudos.

“Os meninos estão com sérios problemas também fora da escola. A incidência de depressão entre os garotos de hoje é chocantemente alta, e as estatísticas revelam que os garotos têm até três vezes mais chances de serem vítimas de crimes violentos (com excessão de estupro) e entre quatro a seis vezes mais probabilidade de cometerem suicídio…”

Não sei se há dados de semelhante natureza em nosso país, mas não é muito difícil perceber que aqui também os meninos desenvolvem comportamentos destrutivos, incluindo alcoolismo ou abuso de drogas, e se envolvem em acontecimentos trágicos muito mais freqüentemente que as meninas.

Os garotos de hoje estão em crise. Na superfície, muitos aparentam ser durões, confiantes e animados mas, por dentro, muitos estão tristes, solitários e confusos.

As mensagens contraditórias que a sociedade lhes envia acabam por coloca-los em risco, hoje mais do que nunca.
Os garotos se escondem por trás de uma máscara de independência, o que não apenas os impede de conhecerem suas verdadeiras personalidades, mas também impede que nós os conheçamos. Esta máscara é uma exigência de nossa cultura machista.

Nós ainda dispensamos aos nossos meninos o mesmo tipo de educação superficial e grosseira de há 500 anos. Uma educação que não sabe valorizar seus sentimentos , não sabe respeitar suas fraquezas e, portanto, espera que o rapazinho seja um projeto de super-herói! Trata-se de uma pedagogia com conceitos de masculinidade absolutamente equivocados.

Como resultado, o menino sofre calado, enquanto a menina conta com permissão para chorar suas angústias no colo dos pais. Esperamos que o menino resolva seus problemas por conta própria, mas quando a garota tem alguma dificuldade, as pessoas a sua volta se apressam em ajudá-la.
A distorção de nossa cultura interrelacional chegou a tal ponto que hoje é imprescindível que os garotos contem com algum tipo de ajuda específica para sí.

O Canadá é um dos lugares onde já existem programas de assistência a jovens do sexo masculino. A medida é também pragmática: pretende evitar gastos previdenciários futuros com famílias que perdem cedo demais pais e maridos.

Nós também podemos criar grupos de apoio aos jovens do gênero masculino, mas quem tiver a responsabilidade de gerir esta tarefa deverá ter sólida formação em psicologia e em relações humanas.
A responsabilidade pela segurança e pelo bem estar dos meninos e das meninas é de TODOS NÓS.

Henrique Úchida Rezeck é professor de Inglês Como Língua Estrangeira e interessado em questões de gênero, educação emocional e cidadania.

Referências:
- Jornal da Mantiqueira
- Jornal da Cidade
- Pollack, W. S. (1998), “Real Boys: rescuing our sons from the myths of boyhood” – Random House. Publicado no Brasil sob o título “Meninos de Verdade”
- Pollack, W.S. e Cushman, K. (2001). “Real Boys Workbook – The definitive guide to understanding and interacting with boys of all ages.” – Villard Books
- Revista Veja
- Escola de Pais

Criatividade está na idéia e não na execução

jun 15, 2005   //   por Serendipidade   //   Criatividade / Inovação  //  1 Comentário

Quando falamos de criatividade geralmente pensamos em propaganda, mas é verdade e evidente que existem outras aplicações. A propaganda está intimamente ligada com criatividade porque a sua mensagem é enviada a praticamente todos os tipos de mídia que dispomos na sociedade, e essas mensagens acabam por consequência atingindo a maior parte da população. Logicamente, o objetivo é seduzir o consumidor, fazer com que seja criado no seu íntimo uma vontade de possuir ou incorporar o objeto anunciado. Mas porque ainda assim a propaganda é assim tão fascinante?

(c) yotofoto.com

Quando éramos crianças, na pré-escola, tínhamos sempre uma caixa de lápis de cor por perto. Todo trabalho escolar se baseava em desenhos e na estimulação da capacidade criativa de cada um de nós. Depois vieram os anos com a vassoura da álgebra, gramática e demais matérias varrendo tudo e toda essa liberdade de pensamento que tínhamos.

A propaganda é uma disciplina que estimula os seus profissionais a se comportarem como crianças no sentido de que a liberdade de pensamento para fazer conexões e mapas mentais seja ilimitada. Sempre que existe uma quebra de comportamento padronizado, nós humanos tendemos a reagir com mais atenção a este fato. É da nossa índole criticar aquilo que está fora dos padrões vitais ou comerciais, mas quando alguém insere essa “boa nova” na nossa frente nos vemos pensando muitas vezes: Que inteligência, muito bem bolado!”. Quem nunca se deparou com um anúncio que quebra os padrões da sociedade e como conseqüência nos inspira alegria ou divertimento?

Essa quebra de rigor imposto pelas agências de propaganda é que nos aproximam da propaganda e criam o seu carisma… alí vemos espelhado a nossa necessidade de voar longe nos pensamentos, nos libertar das amarras da rotina.

Essa liberação acaba sendo muito fácil de traduzir em ação porque dentro da mídia podemos publicar quase tudo que temos em mente através de fotos e filmes e com a ajuda de um computador. Isso é o ponto forte da propaganda. Traduzir a idéia em uma ação, ou seja, em uma foto, página de revista ou filme é uma tarefa fácil dentro da indústria da propaganda. O problema é quando passamos essa necessidade de liberdade para o dia-a-dia de uma empresa ou das nossas vidas.

Em uma empresa, seja quando temos funcionários ou somos os funcionários, existem regras éticas e limitações impostas por hierarquias ou governo. Na nossa vida cotidiana, seguimos frenéticamente os passos do capitalismo e não temos tempo de refletir e encarar a vida de forma divertida e distraída.

A grande questão aqui é valorizar a criatividade, e, para despertá-la devemos criar um exercício mental de criatividade sempre que necessário. Fazer um repositório de idéias sem nos preocupar como faremos para executá-las, ou se elas são comercialmente viáveis. Isso é muito importante para que consigamos criar o maior número de conexões possíveis e conseguir combinar duas coisas diferentes na busca de uma solução criativa.

Um exemplo interessante: Vamos supor que você tenha que descer um bloco cilíndrico de concreto gigantesco por uma passagem cilíndrica estreita e longa. Um ponto a ser notado aqui é que um guindaste que suporte todo o peso do bloco é extremamente caro e esse bloco também é super sensível a pancadas. Qual seria a solução?

Ou ainda um outro problema: Na cidade de Santos, no litoral paulista, diversos prédios estão pendendo para o lado devido ao solo arenoso. O mesmo vale para a torre de pisa, que é um patrimônio e deve ser reerguida com cautela. O que fazer?

Uma solução criativa está em algo tão ambundante em nosso planeta que nem podemos acreditar: na água. A IDÉIA aqui é fazer a água congelar no espaço a ser ocupado, no congelamento a água se expande, deslocando o objeto a ser erguido (no caso dos edifícios). Ou congelamos a água e colocamos o objeto a ser baixado em cima do gelo, para que ele desça com o descongelamento (no caso do bloco cilíndrico de concreto).

Observamos que a IDÉIA é muito boa, porém como faremos para congelar a água naqueles espaços e como vamos encher com concreto o espaço aberto embaixo do edifício é outro problema que não depende da criatividade, mas sim de pesquisa e tecnologia. Essa é a EXECUÇÃO da idéia.

Por isso, quando queremos ser criativos devemos deixar as idéias fluirem continuamente, sem restrições. A análise da validade ou de como executaremos é um passo posterior e deve ser feito somente depois que já esgotamos as possibilidades criativas. Se o bloqueio vier logo em seguida da idéia, jamais poderemos fazer conexões com outras idéias e dificilmente teremos sucesso no estabelecimento de soluções criativas.

Pulseiras da moda ou da distância?

jun 12, 2005   //   por Serendipidade   //   Comportamento  //  3 Comentários

Um dia, há varios meses atrás eu vi um sujeito usando uma dessas pulseiras amarelas e confesso que fiquei curioso por saber do que se tratava esse ornamento uma vez que comecei a perceber a sua presença em vários braços a partir de então.

Se tratava da pulseira lançada pela fundação de um famoso ciclista para angariar fundos em prol das jovens vítimas do Câncer, que juntamente com uma grande companhia de equipamentos esportivos, através do seu website passou a vendê-las aos milhões.

Não que não seja uma ótima campanha, muito séria e comprometida com seus objetivos financeiros e “marketeiros” (falo disso mais tarde). O mundo precisa disso, a solidariedade das pessoas comprando essas pequenas lembranças. Uma ótima oportunidade para mover as pessoas a colocar dinheiro na solidariedade. Muitos de nós não fazemos nada para construir ou tentar ajudar um próximo necessitado, assim, essas pulseiras são um escambo muito justo, faz com que o indivíduo dôe seu dinheiro indiretamente, recebendo um “recibo” por isso. Recibo esse que poderá ser mostrado aos seus amigos na sociedade capitalista de hoje que ele é uma pessoa “engajada” com a ajuda e as boas ações. Quem sabe até propagar a boa ação pelos amigos e parentes próximos.

Feliz a idéia do nosso ciclista que fomentou diversas ações do gênero pelo mundo surgindo assim todo uma nova linhagem de “pulseiras solidárias”. Repito, não é que não seja uma boa idéia, é ótimo e tem trazido bons resultados, mas quero mostrar que precisamos ser sensatos ao comprar uma delas, e perceber que podemos fazer ainda mais pelo mundo do que simplesmente “andar na moda”. Além das pulseiras ainda existem outras maneiras de ajudar, não basta ajudar na “onda da moda”, tem que ajudar sempre. Em uma outra oportunidade, outro dia, gostaria de falar sobre essa “ajuda oportunista”.

Aqui no Brasil eu percebo que somos muito Humanos com “H” maiúsculo, fomos tomados subitamente pela febre das pulseiras, todo mundo, todo mundo ajudando… ajudando? Sim, ajudando… ajudando também nossos amigos falsificadores a ganhar mais dinheiro por causa de MODA, sim, Humanos gostam de ficar na moda, estar sempre da maneira que estão os demais da sua tribo, se parecer bem e no alto da hierarquia do bem estar que nós buscamos em nós mesmos: ser aceito pelos outros Humanos.
Infelizes são os falsificadores que para não passarem fome, seja aqui ou seja em outro país, são muitas vezes astutos e acompanham uma onda que pode trazer o seu ganha pão. E no final o que temos? Que a pulseira da solidariedade acaba servindo também para os “pobres” falsificadores! Bom? Mal? Veremos…

Faço uma pequena interrupção na linha de raciocínio porque queria ainda completar um outro aspecto. A fraternidade, amizade e solidariedade são coisas que estão na moda também. Hoje em dia as empresas estão cada vez mais investindo em programas de responsabilidade social. Através de voluntários do próprio corpo de funcionários, a empresa entra com o patrocínio ou eventos que promovem o crescimento da sociedade necessitada utilizando a sociedade mais abastada.

Assim, ao comprarmos a pulseira temos que botar a mão na cabeça e pensar: Estamos ajudando? Ou estamos tentando ficar longe da pobre realidade social ajudando remotamente, indiretamente, à distância? Temos medo?

Algema com pulseira

Aos que compram as falsificadas, não temos como saber de onde vem e se o falsificador é realmente pobre. Se ele utiliza mão de obra infantil ou promove o tráfico com o dinheiro.

Por outro lado, aos que compram as originais, lembrando do marketing que as empresas estão fazendo com a Responsabilidade Social, sabemos que o dinheiro provavelmente vai promover o bem. Porém não sabemos se a empresa também não usa mão de obra infantil ou conta com empresários corruptos que desviarão uma parte da grana. A Responsabilidade Social pode ser uma mascara ou um elixir que apaga a memória de todos nós, pobres consumidores capitalistas.

E os que compram pela moda? Nem precisamos nos preocupar, pois eles nem devem ter entendido tudo isso… pecam pela inocência.

Como diria Luciano Ligabue de um grupo de rock italiano em uma de suas canções: Baby, é um mundo super.

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